segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Reflexões sobre a educação inclusiva

Reflexões sobre a Educação Inclusiva 

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Inclusão Escolar um desafio
Nos últimos anos os sistemas de ensino adotaram práticas administrativas e pedagógicas objetivando a redução das diferentes formas de discriminação que implique em obstáculo ao direito do exercício pleno da cidadania das pessoas com necessidades educativas especiais.

No entanto, esse processo não ocorreu de maneira estanque. Ao contrário, deu-se como resultado da pressão exercida por diferentes organismos internacionais e nacionais sobre os sistemas de ensino. Na realidade a educação refletia os princípios excludentes da manutenção do poder das classes dominantes sobre os mais pobres. Essas pessoas, marginalizadas, não tinham acesso aos espaços sociais promotores da cultura e da formação humana. Nesse contexto, as instituições escolares eram preparadas para abrigar os alunos considerados como normais (CARVALHO, 2014. p. 18). Os alunos deveriam adaptar-se à escola e não o contrário. Nesse cenário, os alunos diferentes ou especiais, ou não estudavam ou o faziam em educandários especializados para atendê-los. Tal percepção de educação segregacionista, que ainda persiste em muitos sistemas de ensino, vem sendo substituída por um novo modelo de escola, a escola inclusiva.
A concepção de uma educação para todos numa perspectiva inclusiva é definida no trecho subtraído da Declaração de Salamanca, onde se lê que:

Todas as escolas deveriam acomodar todas as crianças independentes de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados (UNESCO, 1994.p. 6).

A inclusão proposta na Declaração de Salamanca (ONU, 2017) se refere, portanto, a todas as crianças e adolescentes em fase escolar. Nesse novo cenário, a escola deve se preparar para proporcionar aos alunos e docentes condições de promover uma educação de qualidade universalizada. A concepção de uma educação inclusiva dessa envergadura pressupõe a ruptura com o atual modelo tradicional de ensino, rompendo as barreiras da discriminação, passando a nortear a política educacional em todos os países como forma de garantia de uma escola comprometida com a cidadania, como afirmam Dutra e Gibroski (2001, p. 1):

A educação inclusiva é tema atual no contexto da política educacional do nosso país, leis e diretrizes inspiradas na concepção de direitos humanos suscitam mudanças no sistema educacional em todos os níveis e orientam para a garantia da equidade no processo educacional, fazendo avançar a responsabilidade da escola com a promoção da cidadania.

A concepção de uma educação inclusiva, como elemento garantidor da equidade no processo educacional é elemento indutor de uma nova política educacional em todos os países signatários da Declaração de Salamanca. Observamos que a educação inclusiva força os sistemas educacionais a se comprometerem com a equidade. Esse novo pensar a educação tende a romper com as fronteiras atuais e estabelecer novas diretrizes de compreensão do processo de ensino e de aprendizagem. Uma educação, vista sob a ótica da justiça social e da inclusão, como nos lembram Seabra, Ferreira e Neiva (2017), ao afirmarem que:

[...] Na perspectiva da inclusão, significa fazer com que todos os alunos adquiram um nível básico de competências; do ponto de vista da justiça, implica que circunstâncias pessoais ou socioeconômicas, tais como o gênero, origens étnicas ou características familiares, não constituam obstáculo ao sucesso educativo [...] (SEABRA; FERREIRA; NEIVA, 2017, p. 290).

A educação inclusiva tende a romper com os paradigmas da educação tradicional, derrubando as barreiras que impedem que todos os alunos tenham as condições educativas para um ensino de qualidade. Constitui-se como instrumento de transformação dos atores sociais envolvidos na prática educacional; professores, alunos, familiares e gestores escolares.
A escola deve resignar-se, reconhecendo os fatores internos e externos ao ambiente escolar, responsáveis por acirrar as desigualdades existentes no atual sistema de ensino. Isso exigirá uma reorganização das instituições de ensino. Como lembram Dutra e Griboski (2011) ao afirmarem que é preciso organizar todos os recursos necessários para se alcançar uma educação de qualidade para todos. Nesse viés de movimento transformador, as autoras afirmam que a educação inclusiva é um processo que se firma em três fatores:

[...] o primeiro é a presença do aluno na escola enquanto sujeito de direito, estar na escola, junto aos demais colegas da sua faixa etária e na sua comunidade; o segundo é a participação, o relacionamento livre de preconceito e discriminação, em ambiente acessível para que realmente todos participem das atividades escolares, com um currículo aberto e flexível; o terceiro fator é a construção de conhecimentos, que significa o aluno estarem na escola, participando, aprendendo e se desenvolvendo [...] (DUTRA; GRIBOSKI, 2011, p. 1).

Os fatores que culminam na transformação dos sistemas educacionais em sistemas inclusivos implicam em colocar o aluno na escola e comprometer-se com a retirada das barreiras ambientais ou humanas que produzem a exclusão. Observa-se que a proposição de uma educação inclusiva tem por finalidade a inserção dos alunos na escola de maneira radical. Todos têm o direito de frequentar as instituições regulares de ensino, garantidas as condições de permanência e de aprendizagem com qualidade. Trata-se de inclusão social em contraponto à simples integração de alunos. Sobre o fenômeno da inclusão radical ou total, Mantoan (2003) afirma que:

A inclusão total e irrestrita é uma oportunidade que temos para reverter a situação da maioria de nossas escolas, as quais atribuem aos alunos as deficiências que são do próprio ensino ministrado por elas – sempre se avalia o que o aluno aprendeu, o que ele não sabe, mas raramente se analisa “o que” e “como” a escola ensina, de modo que os alunos não sejam penalizados pela repetência, evasão, discriminação, exclusão, enfim (MANTOAN, 2003, p. 18).

           A inclusão radical ou irrestrita traz para o ambiente escolar a diversidade, permitindo a escola rever a sua prática com foco nas diferenças peculiar da heterogenia dos atores escolares. Sobre o trabalho na diversidade, afirma Carvalho (2014):

O trabalho na diversidade começa pelo reconhecimento das diferenças e na paridade de direitos que, na escola, traduzem-se como aprendizagem e participação e não apenas como presença física nesta ou naquela modalidade de atendimento educacional escolar (CARVALHO, 2014, p. 23).

Assim, para uma educação inclusiva a escola deve não só reconhecer as diferenças, mas fazer com que todos participem dos processos decisórios. É necessária a presença dos diferentes segmentos da escola na construção e revisão do projeto político pedagógico, no planejamento administrativo e nas definições financeiras da instituição. Ou seja, a gestão de uma instituição de ensino que pretenda promover a inclusão no ambiente escolar deve privilegiar a descentralização do poder.

A descentralização da gestão administrativa é condição para que se promova maior autonomia pedagógica, administrativa e financeira de recursos materiais e humanos das escolas e é promovida por meio da atuação efetiva dos conselhos, dos colegiados e das assembleias de pais e de alunos (MANTOAN, 2003, p. 37).

Portanto, ao descentralizar a gestão e estimular a participação democrática de todos os membros da comunidade escolar o ambiente educacional tende a se tornar mais inclusivo, pois se retira da equipe gestora o estigma de controlador e fiscalizador. Reduz a burocracia e permite a todos, numa postura mais reflexiva, reconhecer e participar do que ocorre em diferentes tempos e espaços escolares. Contribui nessa reflexão o pensamento de Carvalho (2014) sobre a inclusão nos espaços escolares, onde a autora afirma que:

A operacionalização da inclusão de qualquer aluno no espaço escolar deve resultar de relações dialógicas, envolvendo família, escola e comunidade, de modo que cada escola ressignifique o significado das diferenças individuais, bem como reexamine a sua prática pedagógica (CARVALHO, 2014, p. 98).

Aqui, a equipe gestora, numa escola inclusiva, é compelida a compreender que a operacionalização da inclusão pressupõe o exercício de prática democrática e compartilhada de poder. Não basta detectar a existência de barreiras físicas e humanas à inclusão e retira-las. É fundamental que todo o processo ocorra de forma responsiva e com o envolvimento de todos.

Trechos da Dissertação de Mestrado:  
Educação inclusiva e os desafios da equipe gestora de uma escola regular de ensino
Orientador(a): Prof. Dra. Núbia Aparecida Schaper Santos